sábado, 10 de abril de 2010

O PROFESSOR DE INGLÊS

Um raio atingiu o transformador de um poste de iluminação e o computador desligou de repente. Sei que há uma lanterna em casa (meu pai diria flashlight) e guiada pela iluminação que vem do shopping vizinho ao meu prédio busco o armário da cozinha. Abro a porta do armário, só encontro uma lanterna de plástico, sem pilhas. Desolada, lembro que na gaveta de talheres há velas. Abro a gaveta, escorrego mão e acho as velas. Ao seu lado, os fósforos. Acendo uma, aliviada por ver sua fraca luz.
Não sei porque medo do escuro.
A fraca chama em vez de incitar a questionar o medo, leva a devanear. Desobsedada pelo trabalho – na verdade inútil, consiste em escrever artigos para uma revista feminina - rememoro um rosto esburacado iluminado por uma chama de vela.

Conheci Vanda na faculdade, os cabelos louros não sei de polaca natural ou tingida. Toda vez que a via lembrava uma dona de pensão com quem morei quando vim do interior estudar em Curitiba.
Vanda trabalhava como secretária no período em que não estava na faculdade. Havia sido transferida de outro curso. Não simpatizou comigo à primeira vista. Mas eu costumava conversar com uma amiga sua. Sueli era uma menina-prodigio - apesar de ter passado dos 30 anos - que compunha versos e dançava. Como aquelas bonequinhas antigas que dançavam em prato giratório.
Vanda e Sueli tinham um ar retrô. Ou a idade avançada para o curso - frequentado por pós-adolescentes - ou o fato de não pertencerem àquele grupo. Por isto se cumpliciavam.
Lembro de ter ido à casa de Vanda e comido ovo frito. Foi a primeira vez que pensei: para receber pessoas não era preciso cozinhar bem. Havia ido à sua casa porque seu irmão, Válter, era professor de Inglês. E eu estava interessada em ter aulas.
Ele mostrou alguns livros. Lembrei um curso em fascículos: "Aprenda Inglês com Música" . E uma canção de amor que dizia "fool, fool", lamento se derretendo numa voz negra.
As amigas Vanda e Sueli pintavam as unhas com cores berrantes e não sabiam fazer combinar roupas com elegância para se vestir. Uniam-se contra as patricinhas e mauricinhos que riam delas. Eu não estava em nenhum grupo mas sabia que nunca seria aceita pelos elegantes. Não cumprimentava ninguém, não sorria. Ainda guardava uma adolescente ferida que cresceu em concha tendo como companhia apenas os livros.
Sueli escrevia e falava de suas leituras. Comentava sobre a literatura russa, Dostoiévski, Rashnikov, citava Gertrude Stein, mas detestava poesia concreta. Da boina vermelha de tricô que prendia sua vasta cabeleira pendia uma coloridíssima pena de arara. Não sabia se prestava atenção à vasta erudição ou à pena coloridíssima.
- Você não sabe ler Shakespeare no original! Precisa aprender inglês, baby, dizia, blasée.
Assim me vi diante de Válter, folheando apostilas com "The book on the table". Ele contou que morou em Miami durante dois anos. Aprendeu a falar fluentemente a língua do General Custer.
Ao ouvir ele contar as aventuras em Miami pressenti que jamais poderia aprender nada com ele. Não disse imediatamente que não faria as aulas.
Vanda, vendo meu muxoxo, convidou para jantar : arroz, feijão, farofa e ovo frito. Não foi ali que percebi a enorme distância que havia entre nós e nossos colegas de faculdade. Quando escureceu , ela ligou a lâmpada da cozinha, que imediatamente queimou. Valter acendeu o interruptor da cozinha e esta lâmpada também queimou.
- Aiai, ele disse. Deve ter algum problema na fiação.
Era um daqueles apartamentos cinqüentenários do centro da cidade. Devia ter  problemas na fiação e na rede hidráulica. Vanda procurou velas numa gaveta de cozinha. Com ela  aprendi a deixar reservas na gaveta de talheres. Estudando o rosto esburacado por marcas de  espinhas  à luz da chama da vela entendi que não era uma ingênua como eu.
Enquanto comíamos contou que estava preparando documentos para uma transferência para outra faculdade. O curso mais bem conceituado do país. Como havia conseguido, eu imaginava.  Vendo o prazer com que ela e o irmão riam e comiam os bocados de arroz com ovo  não quis  perguntar mais nada.

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